A origem do JIu-jitsu brasileiro.

A origem do JIu-jitsu brasileiro.


Todo mundo está muito familiarizado com o jiu-jitsu do estilo Gracie. Muitas pessoas acreditam que essa família pratica o jújutsu japonês clássico, mas , na realidade, ao se estudar sua história e suas técnicas e conhecer seu estilo, a verdade se mostra diferente. O jiu-jitsu Gracie é simplesmente o jiu-jitsu brasileiro para a maioria dos nativos, mas neste belo e maravilhoso país, berço de lutadores famosos, o conhecimento histórico e técnico do jújutsu clássico é bem vago e carrega uma auréola de várias histórias fantasmagóricas. O mesmo vale para a numerosa comunidade japonesa que mora no Brasil há várias gerações.
     Em uma análise profunda das técnicas de lutas do jiu-jitsu Gracie e a sua aplicação em várias lutas, fica evidente que eles são centrados principalmente me lutas de solo. Os Ne-waza usados são semelhantes aos do Kôsen-Judô. Na realidade, e em primeiro lugar, o jiu-jitsu brasileiro não tem ligação histórica com o jujutsu clássico japonês, que foi criado para sobreviver nos campos de batalha e lidar com atacantes armados com artefatos diferentes. 

     As técnicas de golpes do jiu-jitsu Gracie são muito limitadas e desenvolvidas de acordo com as diferentes técnicas de submissão. Além de que, quando estudadas as várias defesas usadas por alguns membros da família, como Rickson e Royce, observa-se que elas são sempre muito semelhantes àquelas usadas no boxe. A ciência dos golpes e percussões é muito pobre, o que não é o caso do jujutsu clássico. Os grandes campeonatos brasileiros são a prova disso, já que todos os golpes são proibidos. No jujutsu clássico, não há nenhuma competição.
     O uso de armas ou a aplicação de técnicas de mãos vazias que utilizam uma arma não existe no jiu-jitsu brasileiro. No entanto, o jújutsu clássico sempre requer armas de formas e tamanhos diferentes.

     A conclusão é clara: como todas as outras disciplinas que combinam diversos estilos de luta, o jiu-jitsu brasileiro, assim como o judô ou kôsen-judô ou outras modalidades criadas por diferentes federações, não é uma técnica de luta feita para sobreviver durante uma briga de rua nem em um campo de batalha. Porém, a efetividade de suas técnicas de submissão se torna inacreditavelmente eficiente em um torneio onde as regras sempre estão presentes.
     No jújutsu clássico não há regras. Então, por que essa modalidade é chamada de "jiu-jitsu" brasileiro?
     Para entender a origem desse título, temos que voltar a um homem chamado Kôsei Maeda, mais conhecido como Conde Koma ou "Count" Koma. O "Sekai ôgyô judô musha shúgyo" ( 世界横行柔道武者修行) e o "Sekai ôgyô dai ni shin judô musha shúgyô" ( 世界横行第二新柔道武者修行) são dois trabalhos volumosos que explicam os fatos e gestos das várias figuras importantes que contribuíram para a propagação do judô depois de sua fundação por Kanô.

De acordo com essas duas fontes, Maeda era um praticante de alto nível de judô que também teve um conhecimento completo do kôsen-judô, já que possuía a mais elevada graduação de judoca do Kôdôkan. Claro que o conhecimento dele sobre o jújutsu clássico era muito pobre, e para ele, como a maioria das pessoas que frequentemente treinavam no Kôdôkan, o judô era o melhor método de luta de mãos vazias. Maeda tinha sido enviado para os Estados Unidos, com uma delegação, para introduzir o judô naquele país, mas sua compreensão das artes de luta excedeu as técnicas que respeitam a elaboração das regras governantes do Kôdôkan judô. Durante uma demonstração em que Maeda teve que provar a superioridade do judô em um adversário mais forte, ele usou técnicas de submissão e golpes que são proibidos pelas regras do Kôdôkan.
     Durante toda a sua vida, Kanô proibiu os seus estudantes de participar de lutas contra outras escolas. O Kôdôkan ensinava que a moralidade e a proteção do corpo eram úteis para a sociedade e para evitar qualquer ação que poderia afetar negativamente a reputação da escola, o mestre e o ego da pessoa. Uma vez aceito no Kôdôkan, o indivíduo firmava um contrato moral de significado profundo. Agir em contradição a esse contrato era ir contra todos os preceitos de Kanô e do judô.
     Essa proibição de brigas já existia nas escolas de bujutsu antigo e jújutsu clássico, porque se um estudante perdesse uma batalha contra um atleta de outra escola, o adversário poderia aprender o estilo de luta e as técnicas usadas pelo perdedor. Um exemplo famoso ocorreu quando o renomado Saigô Shirô foi expulso do Kôdôkan após ter tomado parte em uma briga.

     Maeda se envolveu com um tipo de luta livre, modalidade que era muito fácil de organizar e bastante popular nos Estados Unidos. Embora a sua viagem tenha terminado no Brasil, ele encontrou tempo para testar as suas técnicas de luta nos anos anteriores. Sobre essas batalhas, ele escreveu:
     " Em uma batalha entre dois praticantes de judô, a primeira regra fundamental reside na obrigação de usar um keikô-gi (roupa feita especialmente para a prática do esporte). Essa regra fundamental permite sair da batalha de uma maneira fácil. Vale adicionar que no judô as técnicas de golpear com os pés ou punhos não são usadas. Isso mostra que a prática trabalha só em um ambiente predeterminado, bem regulado, que restringe os indivíduos e não lhes deixa ser confrontado com outros estilos."

     Esse texto esclarecedor mostra a orientação futura de Maeda e, obviamente, a sua falta de conhecimento do jújutsu clássico. Ele entende que o keikô-gi é um obstáculo, porque em uma briga contra uma pessoa que não o utiliza, ou veste uma camiseta, fica difícil aplicar as diferentes técnicas do judô. Sob essa análise, podemos observar que o seu conhecimento sobre os atemi permanece limitado aos golpes com o punho e o pé, e que o uso dos dedos e das armas é estranho para ele, embora tenhamos que lhe conceder o benefício da dúvida, desde que ele não o discuta.
     Maeda vai ainda mais longe:
     " Quando eu luto contra um oponente estrangeiro, mesmo se eu o agarrar pela manga, não há, certamente, nenhuma razão para acreditar que ele perderá a batalha; a batalha essa que também não está ganha anteriormente. É muito difícil alcançar uma projeção com o tipo de roupa que eles usam e, em razão disso, eles levantam imediatamente ou rolam para amortizar suas quedas. Eu nem posso usar a manga deles para estrangulá-los ou envolver seus braços ou pulsos. É realmente difícil lutar seguindo as regras do judô."

     A experiência adquirida nas várias batalhas contra outros pugilistas levou Maeda a considerar a necessidade de todo praticante de judô aprender os diferentes golpes com o punho e o pé e saber evitá-los:
     " Muito cedo, eu entendi que era preciso praticar chutes e socos. Depois de três, quatro anos praticando esses golpes, a necessidade de desenvolver tipos diferentes de luvas e instrumentos para a prática ficou bastante óbvia. Assim, eu criei um tipo de luva suficientemente grossa para me permitir praticar os golpes. Porém, com esse tipo de luva, fica difícil agarrar o parceiro ou aplicar nele uma chave de pulso ... Acho que é necessário para todo praticante de judô refletir profundamente sobre esse assunto."

     As numerosas lutas de Maeda o fizeram entender a importância das técnicas de solo. Todos os lutadores que ele encontrou, até mesmo os pugilistas, tiveram uma fragilidade em comum: as técnicas de controle de solo. Nesse campo de especialidades, as técnicas de kôsen-judô são as que apresentam as maiores semelhanças com o jiu-jitsu Gracie. Maeda entendeu que ganharia as lutas se obtivesse sucesso levando o adversário ao chão e imobilizando-o.
Carlos e Hélio Gracie
     É importante notar que as lutas das quais Maeda participou não colocavam a vida dos participantes em risco. Elas eram semelhantes às brigas do Pride, luta livre ou UFC, prestigiadas por atletas e curiosos. Quem ganha a luta e permanece no ringue leva o dinheiro. Havia regras, isso é inquestionável, embora elas fossem reduzidas ao mínimo de rigidez possível. Mas, no fim das contas, elas existiam, algo que não ocorre no jújutsu clássico.
     O curso da vida de Maeda é bastante simples: com uma bagagem de lutas recheada de experiência, ele se estabeleceu no Brasil e partilhou seu enorme conhecimento com os membros da família Gracie. Porém, nem os Gracie nem o japonês comum, mesmo o próprio Maeda, podem dizer a diferença entre o jújutsu clássico e o judô ou kôsen-judô. Além de Maeda conhecer o português de forma muito precária, o japonês falado pela família Gracie se reduzia a formas básicas de educação, como "arigatô", "kon nichiwa" e "sayonara". Assim, a confusão e ignorância, que já existiam no berço da elite do Kôdôkan no Japão, foi transmitida para a família Gracie e todo o Brasil. 
     Não pretendemos reduzir a relação com Maeda a uma simples transmissão de erros. Se Hélio Gracie teve sucesso ao encontrar o conceito de influência em uma briga de chão baseado no uso da flexibilidade, é porque Maeda fez um ótimo trabalho como professor. Para isso, Maeda frequentou a melhor escola do mundo, o Kôdôkan, e foi pupilo de um mestre nessa arte: Kanô. Assim, levando-se em conta esses fatos, pode-se concluir facilmente que o kôsen-judô, baseado apenas na luta de chão, foi a base do arsenal técnico presente no jiu-jitsu Gracie. Esse arsenal vem da herança técnica do judô, do que resta dos conceitos introduzidos por Kanô para explicar e mostrar o seu judô.




Fonte: Texto extraído do livro: A Arte do Ninja - Entre ilusão e realidade - Kacem Zoughari - Ed. JBC 


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